Arautos do Deserto

Maôri, cujas chamas infernais habitam seu crânio

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Um calafrio na espinha, a garganta seca. O coração palpita acelerado. A mão apertando o cabo da arma. Seus pés caminham, esmigalhando pilhas de ossos fragmentados.
Orig sente seu corpo e mente reagindo à presença do mal.

As orelhas em pé, sensíveis ao que cerca. pernas arqueadas, sentindo a vibração do solo. Os músculos retesados como a corda do arco. O focinho farejando no ar o cheiro de coisa morta. Sapulha estava em alerta. Sempre estava, e por isso nunca era surpreendido.
Enquanto os demais se ocupavam com seus pensamentos temerosos, a única coisa que o incomodava era a leve sensação de não estarem a sós.

A respiração ofegante, pesada. As duas mãos envolvendo o cabo da enorme arma cor de carmim. A pelugem já prateada é coberta de poeira e fuligem de ossos. A boca semiaberta, ensaiava um sorriso feroz, de ansiedade e desafio. Tironeos sentia que o totem do urso estava distante, mas o Abutre se fartaria naquele lugar. Olhava ao redor, atento a qualquer ataque, mas o que incomodava era o silêncio.

Um sopro forte, poeira e teia de aranha voaram, revelando os entalhes que cobriam a capa de couro negro. Limpou bruscamente o livro com a mão. Levou alguns minutos para identificar os hieróglifos, e sentiu um arrepio gelar a nuca ou perceber a linguagem do tomo: todo O volume era escirto no idioma infernal. A língua dos demônios era complexa, agressiva, e possuía sons difícies de reproduzir. Ler era um pouco mais fácil. Se tratava de um volume de escrituras referentes a uma divindade chamada Sartan. O nome não era estranho. Amarrou o enorme livro às costas, para uma futura inspeção.
Ned considerava estranho aquele púlpito, aqueles bancos, aquela figura sacerdotal desprovida de cabeça. Tudo estava ao mesmo tempo intocado, conservado, e também decadente, em ruínas. Como um experiente construtor, notou rachaduras comprometedoras em diversos pontos da estrutura, mas diversas mobílias ainda estavam intactas, assim como os vitrais, assim como as vestes do sacerdote. Algum poder mantinha a catedral de pé.

A costela perfurada ainda doía, mas pelo menos fora cicatrizada pelas preces do companheiro. Em Uren, uma flecha era uma flecha, sinônimo de morte quase certa, ou o fim de uma carreira. Naquele mundo estranho, podia-se cair de 60 metros sobre uma cúpula de vidro, e na mesma semana se vencer um concurso de dança. Arton era estranho, e as vezes ele jurava que tudo não fosse um sonho profundo, e muito divertido.
Caminhou com cuidado em direção à estranha figura humanóide. Sua mente aguçada se atentou à detalhes que ninguém mais perceberia. A figura não era um esqueleto como os outros. Seu corpo imóvel era tornado de músculos, ainda perceptíveis sobre o grosso manto. Não era uma simples estátua… Nem era um simples morto vivo… Tampouco parecia um mero cadáver perpetuado ali pelo passar do tempo. As vestes eram distintas, com medalhões, runas em ouro e adornos que sugeriam uma posição social elevada. Mas o que deixou Ricmorn alerta foi a poeira.

A ausência dela.

Havia um livro sobre o púlpito, coberto de poeira e teias de aranha, que o anão, quase de maneira imprudente, se apressou em pegar. Havia também uma adaga, cravejada de jóias, um item de fabricação e detalhes esmerados. Em sua base, um mecanismo em roldanas que fazia com que a lamina se retraísse. Ricmorn apostava que era uma chave.

Tudo era coberto de poeira.
Menos as roupas que recobriam o estranho ser decapitado.
Com exceção da parte debaixo do manto, toda sua figura estava incólume da sujeira e fuligem daquele lugar.

Ou havia alguma magia de proteção que mantinha os sinais do tempo afastado, ou aquele “sacerdote” tinha hábitos de higiene.

Então não houve mais tempo para pensar.

Uma risada ecoou pelo corredor da catedral, quase ao mesmo tempo em que Sapulha anunciava de que algo se movia ao fundo.
Tudo ficou muito iluminado, mas a luz era de um verde-claro radiante. Todo arcanista reconheceria essa energia… Era sinal de poder.

A gargalhada, ecoava pelas paredes do salão vazio, mas não era fantasmagórica, era sincera, como se alguém realmente tivesse achado algo engraçado.

Bem atrás do grupo, embora ainda a quase dez metros de distância, uma figura se torna visível, como que vinda do nada. Se tratava de um crânio flutuando a quase dois metros do solo, envolto a brilhantes chamas verdes, os olhos queimando em chamas vermelhas. A cabeça ilumina com esse estranho brilho todo o corredor e avança… Armas em punho, preces e feitiços na mente, e todos se preparam para enfrentarem Maôri, cujas chamas infernais habitam o crânio.

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flaviovferreira

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