Arautos do Deserto

Interlúdio Parte 2

A Ária do Divino Refrão

A noite foi tranquila para todos. Menos para o clérigo Ned.

Apesar da paisagem serena, apesar da noite fresca de outono, ele teve um sono inquieto. Embora estivesse exausto, algo o impedia de pregar os olhos.
Eles acamparam próximo a um córrego, que, com o silêncio da madrugava fazia uma melodia harmoniosa com os grilos, corujas e outros sons da noite. Mas havia em Ned uma angústia, um sentimento de urgência, uma noção de eminência de algo ruim à medida que as horas se passavam.
Vasculhava seus pensamentos…- Será que fizemos algo de errado? – Pensava. Tentava dormir em vão… Tentava planejar o que fariam no dia seguinte (o grupo já começava a criar uma expectativa pela constante orientação e sabedoria do anão), mas ele não conseguia tecer uma só linha de raciocínio… seus pensamentos se perdiam. Tentou uma oração, mas seus pensamentos não se concentravam. Virou-se para um e outro lado, agora ouvindo os roncos titânicos do Minotauro Tironeos.

Por fim, retira do bolso o artefato de Nimb, o dado de 20 faces, na qual estavam inscritas as palavras da curta e estranha profecia:

“Ou Não”.

dado_2.png

Era um item simples demais, de aparência mundana. Uma espécie de dado preso a um colar. Mas Ned sentia que o artefato tinha um grande e oculto poder, de alguma forma contido, mas suficiente para incomodar e contaminar com caos sua mente ordeira. O dado protestava… Talvez ficasse melhor nas mãos de alguém mais “caótico” por assim dizer.

- Sapulha… acorde.

O goblin parecia dormir junto com seu lobo, somente a peruca estava visível entre a espessa pelugem e as grandes patas do animal.

- Ei, Sapulha, preciso de sua ajuda!

Ned cutucava a cabeça do goblin, e sentiu que ali só havia uma peruca.

Ouviu uma voz atrás de si

- Que foi?

Era Sapulha… Sem peruca. Ned, após um baita susto:

- Ora… pensei que…

- Ela pegou no sono antes de mim.

- Porque está acordado a essa hora?

- Estou fazendo meu turno de guarda.

- Mas porque não estava aqui por perto?

- Fui cagar. Bem ali na moita.

Ned, meio desconcertado…

- Desculpe… não queria incomodar

- Fique tranquilo, já acabei. Eu cago rápido, só demorei hoje porque o pedaço de pernil que comi não caiu muito bem. Tem vezes que o cocô desce bem, sem sujar nem nada… Mas dessa vez não foi assim. Foi difícil.

- Escute Sapulha… Não consigo descansar… Você pode carregar o colar com o dado que encontramos? Como poderia dizer… Ele faz mal para alguém como eu, entende?

Sapulha sempre prestativo ameaçou pegar o colar, mas hesitou…

- Não entendi… Isso não vai fazer mal pra mim também?

- Acredito que não, Sapulha… Bem, somos diferentes sabe… A maneira como nos comportamos, o que fazemos ou não fazemos… Difícil de explicar para que entenda… Mas o dado com certeza não gosta de mim, mas ficará bem com você.

Sapulha abriu um grande sorriso, balançando lentamente a cabeça para cima e para baixo, com cumplicidade.

- Ah, agora entendi…

- Que bom…

- São os primos não é?

- O que?

- Os primos! Eu sempre respeitei os meus. Nunca os beijaria na boca.

- Hã?

- Não se preocupe, pode ir dormir agora.

Ned bufou de cansaço e irritação, mas podia finalmente descansar. Viu que Sapulha caminhava em direção aos arbustos.

- Ei, você já não tinha acabado?

- Sim, agora vou me limpar.

“De fato, os dados estão agora com a pessoa certa”, pensou.

Dessa vez Ned dormiu bem.

Sapulha também. Sonhou com pêssegos gladiadores e cidades feitas de milho cozido.

Era o dado, dessa vez com a pessoa certa.

Antes que o sol despontasse, todos estavam acordados.

Menos Ned, ainda em sono profundo.

Iniciaram os preparativos para seguirem viagem. Selaram as montarias, partilharam uma rápida refeição e encheram os cantis.

- Ei!!! Quem vem lá?

Tironeos aponta uma colina baixa, na borda da floresta da qual desponta uma figura. Em outros tempos, alguns sacariam suas armas, outros se esconderiam buscando a
melhor posição para um possível tiro. Mas eles haviam acabado de derrotar um dragão verde. Não eram de fato um grupo de iniciantes.

A medida que se aproximava, se discerniam os contornos de uma halfling, montando um grande cão doméstico. Suas vestes sugeriam uma vida de aventuras. Um trage prático que servia como proteção, sem abrir mão da mobilidade. Ela portava uma única jóia, um grande coração de pedra vermelha sobreposto por uma pena, o símbolo da deusa da paz. Cabelos ruivos, olhos grandes e verdes. Ela acenava, feliz.

yanna_gaugins2.png

- Yanna Gaugins… – Ricmorn dizia a seus companheiros

Ned acordou com uma leve botinada de Orig

- Levante, temos visita!

A pequena clériga parecia radiante. Sua voz era amigável, seus gestos eram serenos. Demonstrava intimidade com qualquer um após uma breve conversa. Havia usado de sua magia divina para, após algumas horas desde o dia de ontem, localizar o grupo.

Estava ali para lhes entregar algo importante.

- Bem… na noite de ontem, consegui entender a profecia de Marah, bendita seja a Dama Branca! A princípio não compreendi, mas o que minha deusa me deu não foram somente sentimentos… Foi Inspiração!

- Então você conseguiu interpretar? – Disse Ned, ainda sentado sobre seu colchão de palha. Fez menção de coçar a barba, mas o dragão havia comido, lhe sobrou um cavanhaque.

- Interpretar não, mestre Ned… compor. A profecia de Marah é uma canção!

- Pois então cante-a para nós! – Ricmorn disse sorrindo e abaixando-se até a altura da pequena Yanna. Era a seu ver, uma miniatura de gente, quase uma bonequinha, tão delicada que era de se impressionar que já suportara tanto sofrimento.

- Eu só consegui a letra por enquanto… Os sentimentos que Marah colocou em meu peito fluíram em versos como o orvalho do céu…

A clériga tirou de um belo tubo de vidro, o papel onde estavam registradas as palavras da profecia musical: Uma canção denominada:

A Ária do Divino refrão

musica2.png

- Não parece apenas uma canção profética, na verdade se assemelha…

- Sim, magia divina, mestre Ned! Isso é o que eu e Adria também pensamos… A letra sugere que os deuses dividiram conosco parte do poder que lhes sobraram… Marah está concedendo através da profecia… a “Legião da Paz”, embora ainda não sei exatamente o que é

- Então as profecias não apenas nos alertam sobre o que está por vir… Mas também nos fornece armas para combater os inimigos!

Orig dizia a frase em batia no peito nu, coberto por cicatrizes e tatuagens. O olhar de reprovação de Yanna acabou com sua empolgação.

- Armas? Marah jamais usaria armas para vencer… Mas acredito que, infelizmente uma grande batalha acontecerá… Ou já está acontecendo, não sei. O fato é que a canção, ao ser tocada, nos dará algum tipo de presente, ou auxílio.

Ricmorn jogava sua capa às costas, e encaixava o chapéu à cabeça

- E uma boa notícia… Buscar pelas profecias foi uma escolha sábia… Isso pode desequilibrar a luta a nosso favor…

Yanna entregou ao grupo uma cópia da profecia de Marah. Sua despedida foi breve… Ela tinha grandes esperanças de encontrá-los de novo. Pensou em deixar-lhes uma bênção, e palavras de carinho, mas seu dom profético manifestou-se mais uma vez. O semblante sereno de Yanna tornou-se pesado. Já montada em seu cão, virou-se para trás e disse, fitando a cada um:

- Me sinto mal em dizer-lhes isso, Arautos… Meu dever é trazer paz aos que encontro… Mas, a jornada de vocês será muito dura. Nossos inimigos sabem o que queremos. Os deuses não se lembram de quem vocês são, mas a Tormenta está além do espaço e do tempo. Haverá momentos de confusão e vazio. Dor e morte cruzarão o caminho de vocês. Façam qualquer coisa para obter as profecias, e retornem o mais rápido possível para nosso templo.

Ela fita Ned e Ricmorn com os olhinhos marejados. E mais uma vez:

- Façam qualquer coisa para obter as profecias. É para um bem Maior.

Houve um longo silêncio enquanto a imagem da pequena Yanna se distanciava nos bosques além.

Ned e Ricmorn se entreolharam… Sentiam o peso de escolhas ainda não feitas, dilemas ainda não vividos. De cima de suas montarias, assentiram um para o outro.

Tironeos e Orig se entreolharam. Entre os guerreiros, o sangue fervia de ansiedade por batalhas que ainda não aconteceram. Sua breve rivalidade só era superada pelos laços da batalha que os uniam em uma poderosa força de ataque.

Ned e Ricmorn cavalgavam à frente, seguidos de perto pelos guerreiros. Mais ao fundo, Sapulha sobre o lobo, adiantou-se. Como todos estavam pensativos, em silêncio, não quis atrapalhar o clima.

Utilizou o colar de Semuanya, sussurrando ao mago:

- Pra onde estamos indo?

Ao sinal de Ricmorn, Todos pararam de novo:

- Boa pergunta!

Era um recomeço. A jornada precisava de uma nova direção.

Comments

flaviovferreira

I'm sorry, but we no longer support this web browser. Please upgrade your browser or install Chrome or Firefox to enjoy the full functionality of this site.