Arautos do Deserto

Capitulo 4 - O Relógio do Caos: 89 dias

Interlúdio - Parte 1

Em algum lugar nas planícies de Hongari…

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- Não Sapulha, não coloque esse chapéu… Ele pode ser amaldiçoado!

O goblin, insistia e aproximava o chapéu da cabeça lentamente… Sorrindo, com os olhinhos cerrados, provocando Ned.

- Vai estragar sua peruca, deixá-la cheirando a peixe podre! – Ajudou Ricmorn, enquanto acendia um charuto

Sapulha jogou o chapéu no chão, com uma careta, e foi cuidar de Fofucho, o enorme lobo que mantinha como montaria.
Era um chapéu de couro escuro e encharcado, daqueles utilizados por piratas do mar negro. Fedia a peixe podre, e nunca ficava seco. De forma alguma se parecia com um item mágico. Eles o haviam obtido algumas horas atrás, junto ao cativeiro de Ethel e Baba Yaga, com o que sobrou dos tesouros do dragão.
Tironeus e Orig, chegam ao improvisado acampamento. Orig tem nas costas o corpo de um cervo marrom. Tironeos joga no chão uma montanha de lenha.

- Não vamos incendiar o reino, minotauro. Era só uma fogueira! – Orig poderia estar sorrindo de dentro do elmo, mas só se via sombras, e ele não era mais capaz de sorrir.

- Ah… Isso seria muito pesada prra você não é? Mas fique trranquilo… Eu sou forrrte!

A voz do minotauro retumbava, com um pesado sotaque de Tapista. A língua dos minotauros era grave e complexa. Tironeos sempre se esforçava para se expressar. Suas voz ecoava pela planície banhada por uma lua discreta, encoberta por nuvens.
Orig apenas balançava a cabeça, impaciente, enquanto esfolava a carne de caça preparando para assá-la

Todos sentam-se ao redor do fogo, aceso por magia. Ned tira as fivelas da armadura, e descansa os pés da bota pesada. O anão passa algum tempo em preces e meditações, analisando o tesouro obtido do dragão, manifestando sua gratidão com canticos sussurrados e orações à Anciã Primordial, a quem ele serve.

A noite avança, e Orig se encarrega de preparar o assado, em uma espécie de armação de galhos, e Tironeos está ao seu lado, dando palpites sobre a forma como a caça deve ser assada.

- Não é assim, Origs… Vai deixar a carrrne durra!

- Não te perguntei nada! Pode comer sua ração se não quiser.

- Você não ter talenta parrra cozinhar… se não amarrar as tripas, a gordurrra vai secarrr e perrderremos o saborrr

- Se sabe fazer melhor que eu, da próxima vez consiga sua própria caça, e não fique só andando atras de mim falando merda.

- Eu fui com você parra te protegerr Origs… Caçar pode ser perrigoso, você precisa de proteçao, mesmo que não perrrceba.

- Como faço pra você entender no idioma de Tapista que eu já mandei você ir se fu…

- Pessoal!- Ned Interrompeu – Já identifiquei nossos itens… O chapéu e a vassoura, embora poderosos, são de fato são amaldiçoados!

Ricmorn alternava entre os tragos do charuto, goladas no odre de vinho e nacos de carne do cervo que não teve sorte.

- Como sabe, senhor Ned? Mais um dos milagres de sua deusa?

- Tanna Toh mostra a seus servos a verdade sobre itens mágicos. Não há mistérios para os clérigos da sabedoria.

Sapulha e seu enorme companheiro lobo haviam se distanciado para fazer rondas no perímetro. Fofucho, apesar do nome quase infantil, era uma enorme criatura. O pelo era cinza-claro, quase neve na cabeça e pescoço, e cinza escuro, da cor do grafite no restante da espessa pelugem. Possuía grandes presas, e uma crina de espinhos nas costas (que sapulha segurava ao montar). Apesar de grande, não tinha um semblante maligno. Não era um monstro, mas um animal selvagem, um belo espécime de Alihanna. O lobo das cavernas possuía olhos de um azul profundo e os focinhos, assim com a boca em tons avermelhados. Sapulha passava algum tempo conversando com ele, que não parecia ser muito amistoso com ninguém, embora tolerasse a presença do goblin.
Por segurança, ficava amordaçado a maior parte do tempo.

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Ned abaixou-se, pegou o chapéu com cuidado. Todos olhavam para o anão… Era a hora de contar a história do chapéu e de sua portadora:

- Companheiros… Tanna Toh revelou-me a história, poderes e fatos estranhos que se relacionam ao chapéu de Ethel, a Enxarcada. Ele permite respirar e falar debaixo dágua, além de conceder ao portador grande força física e perícia em combate, mas infelizmente, se trata de um item maldito, carregando energias relacionadas a lembranças torpes e terríveis… Ned era um bom contador de histórias… O grupo ficou em silêncio, que durou até um sonoro arroto de Sapulha que retornava de sua ronda.

Ned recompõe-se, e prossegue com o relato:

Eu vi imagens de violência em um navio…. Uma bela elfa, esposa do capitão de barco pirata é capturada durante um motim, sofrendo todo tipo de abusos e violência que vocês podem imaginar. Seu corpo violentado e agonizante é jogado aos tubarões. O pescoço quebrado, a pele dilacerada pelos acastigos de homens maus. Ela agoniza no fundo do mar, afogada em seu próprio sangue e ódio nas águas turbulentas da enseada dos selakos.

Seu coração puro é tomado por ódio e sede de vingança… Raiva impotente e dor enquanto afunda… No fundo do mar, a corda que prendia seus pés a uma pesada pedra de coral se rompe. Mesmo com o pescoço quebrado e o corpo castigado de ferimentos, ela se debate em desespero. Os selakos famintos, sentem sua aura de dor e ira, e nadam para longe… tubarões como esses jamais rejeitam uma refeição, mas havia algo estranho com aquela vítima dos piratas.

Ao invés de morrer logo, como se esperaria de uma frágil elfa naquelas condições, ela continuou a se afogar e se debater por muito tempo… minutos, depois horas seguidas… Os piratas do navio ali ancorado ouviam do alto da embarcação os gritos de dor e angustia, e se tremiam de medo… temendo mau agouro… ela simplesmente se recusava a morrer, debatendo-se nas marés desde a manhã até o fim daquela tarde nublada. Por fim, os piratas superticiosos, já oravam a Oceano e Nimb… No navio, os mais religiosos já diziam que o deus dos mares, não permitia que aquela alma tão cheia de ódio fosse sepultada em suas águas, e por isso vomitava a elfa Ethelánienn de volta para superfície. Por outro lado, o ódio e sua determinação era tão profana e odiosa que nem mesmo a morte poderia levá-la.

Por fim Os piratas assustados, zarpam com o navio, para bem longe dali. As lunetas, a distância de um tiro de canhão, ainda mostravam Ethelánienn se debatendo na imensidão do mar.

Ned interrompe a narrtiva, e aponta para o céu. Falava como se estivesse presente, não se esforçava para impressionar, mas era uma testemunha quase ocular do que dizia. Prosseguiu:

- Em algum lugar entre as estrelas, Deuses entediados observam os mortais. Talvez estivessem aguardando o início de alguma assembléia divina, ou algo assim, não me foi mostrado ao certo… O que sei é que enquanto aguardavam, de vez em quando, uma coisa ou outra despertava a atenção deles no mundo material, ali representado por um mapa projetado em uma parede espectral. Um entretenimento distrativo para os que aguardavam o início da solenidade.

- Veja, Tenebra… você a quer? – Diz o enorme elfo do mar, apontando com desdém para uma cena, que por sua vontade se ampliou na enorme parede etérea à frente deles. O grande elfo azul tinha gelras no lugar das orelhas. Estava seminu, e adornado com as jóias mais preciosas dos mares. Braços como torres cruzaram-se sobre o peito. Forte, Viril. Sua voz é o trovão de muitas tempestades, o rugido de mil milhares de criaturas abissais. Ondas magníficas jamais vistas por olhos mundanos apenas molhariam seus pés… Ele é o Pai da vida, O Grande Oceano. Distante, e geralmente indiferente, ele volta sua curiosidade para a tal cena: Uma elfa antes bela, agora esfolada, enforcada, se debatia contra as marés. Se recusava a morrer, e assim estava desde a manhã até o fim da tarde no mar do Leste de Arton.

- Seria um belo presente, querido… O que deseja em troca? – Diz a bela mulher ao lado, se insinuando. Tocou o ombro de Oceano. Seu toque era frio, necrosante. O deus dos mares sequer demonstrou, mas sentiu a espinha gelar. A pele dela era clara como a lua. Ou a lua fora feita à sua semelhança. Tenebra era Única. Pequena, fatal, feminina. A deusa beirava o vulgar com seu longo vestido justo, da cor da noite. Deixava revelar partes de seu corpo curvilíneo. Era perigosa. Era Treva.

- Nada quero por ora, Lua-Khai. Apenas a leve para ti. Um presente.
Oceano sorriu.

_ – Sim,aceito. ela têm uma história linda. Um início maravilhoso._

No mundo material, a noite surgiu, despontando a bela lua cheia no céu negro sobre o mar.

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De súbito, já nas altas horas da madrugada, o navio dos piratas encalhou, ja a muitas léguas de onde estava a elfa Ethelannién. O casco foi danificado por recifes que não deviam existir naquelas águas. Um fedor de peixe podre permeia o convés. A bebida e a água potável estavam podres, envenenadas. Confusões e brigas começaram a ocorrer pelo navio. Homens experientes se agitam. Há algo de errado com os humores da tripulação. Gritos de briga, sons de morte são ouvidos de proa à popa por toda a madrugada. Então, o horror começou. Corpos mutilados, sangue inundando o porão.

30 marujos. E antes que o sol nacesse, um por um, todos mortos. Aquele navio à deriva jamais fora resgatado ou explorado por ninguém. Aqueles recifes passariam a ser chamado de recifes fétidos, e ali, a algumas léguas da costa de Hongari morria Ethelannién, e nascia o mito de Ethel, A enxarcada.

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Silêncio. Mas Sapulha aplaudiu.

Ricmorn pega entre os espólios obtido do dragão uma folha de couro.

- Incrível habilidade Ned… Enfrentamos Ethel fora de seu covil, e ela se mostrou muito poderosa (e Orig instintivamente colocou a mão no queixo, lembrando-se dos murros da bruxa). Sua história parece ter ligação com o mito relatado neste cântico… Veja..

Ricmorn pigarreia e lê em voz alta as palavras em rima, já conhecidas dele e de Sapulha:

Teme o fim o marinheiro
Teme o recife que mata!
Borra as calças bucaneiro
Treme de medo ó pirata
De proa a popa, desgraça, infortúnio e revés
E o cozinheiro delata:
- Há uma bruxa no convés!

Eram 30 bons marujos, mas não resta mais nenhum
Morreram se perguntando:
- Quem envenenou o rum?
Ela estirpou o Corsário,
Esquartejou tripulantes,
Enforcou o Imediato com as tripas
Do comandante!

A água ficou amarga
Com veneno, o rum não presta
Mas no coração dos homens
É que a bruxa faz a festa:
Dois brigaram junto ao mastro,
se furando com mosquetes
E um faxineiro ofendido
se vingou com um porrete!
Um velho de tapa olho
seu papagaio enforcou
Jurando que o bichano
Na madrugada o bicou

E por toda a caravela
Era conflito e tumulto
Todos se degladiando
Alegando algum insulto!

Morte! Morte! Zombaria
De sua boca maldição
Sua língua de perfídia
Naufragou a embarcação!

Ninguém deve, se for são,
Ver sua verdadeira face
Pois a bruxa se acuada,
revela o profano disfarce

E Com seu rosto macabro
E olhar de morte, mal
Trará a quem a enfrenta
Um pesaroso final

(Somente Sapulha reparou, mas o ar ficou levemente mais gelado, e uma poça dágua se formou sob os pes de Ned, que segurava o chapéu e ouvia com curiosidade).

Ricmorn continuou a ler as palavras do cântico:

De bombordo à estibordo
Em alto mar ou enseada
Quem veleja para o leste
Teme Ethel, a Enchar…

- Nããããããão!

O Escudo “Sentinela” acendeu como brasa, informando do perigo. Uma poça d´água borbulhava sob os pés de Ned. O sacerdote interrompeu com um berro as últimas palavras do cântico, jogando o chapéu no chão e tapando a boca do mago.

- Isso é um Cântico Herege, Ricmorn, não são simples versos. São palavras lendárias, códigos arcanos ou divinos de invocação!

Uma flecha voou do arco de Sapulha e se cravou no chapéu. As espadas de prata e vermelha já brilhavam, alertas nas mãos dos bárbaros.

Ned olhou ao redor.

- Acalmem-se, está tudo sob controle… Agora sabemos de uma coisa nova… Temos um cântico de bruxas e um item de uso pessoal delas. Ao que parece, isso é suficiente para invocá-las.

Orig, impaciente:

- Mas elas não estão mortas?

Ricmorn, já entendendo…

- Pelo jeito sim… mas só continuarão mortas se essas palavras não forem invocadas de novo.

Ned assentiu

- Exato… Pelo visto, não são simples bruxas, mas bruxas lendárias. Devem ser espectros de outros planos, e só encontrarão a morte final se confrontadas lá. A vassoura de Baba Yaga, por exemplo, têm Origem em Venomia, o plano do deus da Traição.

Ricmorn já enrolava o papiro com o cântico.

- Então basta manter o chapéu e a vassoura longe do cântico, e elas não retornarão.

Tironeos, guardando a espada…

- Pôssa finalmenta dormirrrr agorra ou vocês querem invocar mais olguma coisa?

O Goblin monta em seu enorme lobo selvagem. Ele tem a peruca penteada e amarrada em dois tufos de cada lado da cabeça, com uma repartição no meio.

- Sapulha e Fofucho pode continuar fazendo guarda… Acho que o chapéu já está morto mesmo…

E exaustos, finalmente, dormiram em seu acampamento nas pacatas planícies de Hongari.

Ricmorn antes de adormecer, contemplou o céu nublado, assim como era sua vida atá aquele momento. Pensou em seu filho, torceu para que sobrevivesse a tudo aquilo. Quem sabe o garoto podia ter uma “vida” se aquilo tudo acabasse bem. Adormeceu sentindo sua mão direita formigar, como sempre.

Tirôneos alternou-se na guarda com Sapulha, e dormiu pensando na batalha. Sentia-a se incomodado por ter sido dominado pela aura de medo do dragão. A fera provocou nele um temor irracional, um misto de cenas de morte e derrota de sua família, de seu clã e de seus novos companheiros. Apesar disso, estava orgulhoso por terem derrotado um lendário inimigo. Olhou ao redor, e por alguma razão, não se via mais entre estranhos.

Orig repousava, mas não era mais capaz de dormir. Se o fizesse, voltaria para Nightméria, e cada vez que ia… mais difícil era retornar. Pensava em sua responsabilidade. Fora escolhido por Kaiamar para portar a profecia. Fora escolhido por Bearandur para tomar a liderança de sua tribo, e preparar os guerreiros Uruakê Balam para luatrem do lado certo quando for necessário.

Ned era de fato o mais exausto. Fez suas preces noturnas, agradeceu os tantos milagres feitos por seu intermédio. Ficou aliviado com a ausência do perturbado Allen Attory. Por sorte deles, o pequeno virou “Tory-Allen da Noite” e partiu na frente para Sempre Verde, dizendo que: “Um clérigo de Tenebra aprecia caminhadas em comunhão com as sombras”.
O anão teve uma noite inquieta. O artefato que continha a profecia de Nimb lhe perturbava as ideias. Era difícil carregar o artefato quando se era um adepto da ordem.

Sapulha…
Sapulha apenas dormiu mesmo.

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flaviovferreira

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